Caps-AD promove roda de conversa sobre violência contra a mulher com usuários do serviço  

Palestra no Caps-AD

“Raiva é uma emoção. Violência é um comportamento.” A reflexão foi um dos pontos centrais da roda de conversa promovida pelo Caps-AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), serviço administrado pela Zatti Saúde em parceria com a Prefeitura de Araçatuba, para os homens atendidos pela unidade. A atividade foi realizada em alusão ao Agosto Lilás, mês de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher.  

Conduzido pelo psicólogo Nelson Tallarico Junior, agente do CAM (Centro de Atendimento Multidisciplinar) da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, unidade de Araçatuba, o encontro propôs uma conversa aberta sobre violência doméstica e familiar, seus diferentes tipos, responsabilização e formas de interromper comportamentos violentos.  

Ao abordar a conhecida expressão “eu perdi a cabeça”, Nelson convidou os participantes a refletirem sobre o significado dessa justificativa: afinal, a pessoa “perde a cabeça” com todos ou esse comportamento aparece especialmente dentro de casa, diante de uma companheira que contraria uma vontade ou estabelece um limite?  

A partir dessa provocação, o psicólogo explicou que a raiva é uma emoção humana, enquanto a violência está relacionada à maneira como a pessoa escolhe agir diante dela. “Não controlamos tudo o que sentimos, somos responsáveis pelo que fazemos”, destacou no encontro.  

Tipos de violência 

A conversa também tratou dos diferentes tipos de violência contra a mulher: psicológica, sexual, patrimonial e moral, destacando que algumas deixam marcas visíveis, enquanto outras podem não ser percebidas imediatamente, mas também produzem consequências.  

Outro ponto discutido foi a ideia de que ciúme e controle seriam demonstrações de amor. Nelson chamou a atenção para comportamentos como exigir senhas de celular, fiscalizar mensagens e redes sociais, controlar amizades, determinar onde a companheira pode ir ou exigir saber constantemente onde ela está. “Ciúme não é prova de amor e controle não deve ser confundido com cuidado”, ressaltou.  

Álcool e responsabilização  

Por ser um serviço voltado ao atendimento de pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas, o Caps-AD também trouxe para a discussão a relação entre o consumo de substâncias e situações de violência.  

Segundo Nelson, o álcool pode reduzir inibições, aumentar a impulsividade, agravar conflitos e dificultar o controle do comportamento. Ao mesmo tempo, ele ressaltou que o uso de álcool ou outras substâncias não justifica nem determina, por si só, a prática de violência contra a mulher.  

A responsabilização foi, justamente, um dos conceitos mais reforçados durante o encontro. Compreender a história de vida de uma pessoa, suas dificuldades, experiências familiares ou o uso problemático de substâncias pode ajudar a entender determinados comportamentos, mas não significa justificá-los.  

“Responsabilização começa quando conseguimos dizer: eu fiz isso, isso teve consequências e preciso aprender a fazer diferente”.  

Um espaço para pedir ajuda  

Para a psicóloga Luana Russo Scardovelli, responsável pela iniciativa no Caps-AD, a escolha do tema e do formato da atividade considerou o perfil dos usuários atendidos pelo serviço.  

“Como agosto é o mês de conscientização, no ano passado trouxemos uma mulher para falar com as mulheres que são vítimas. E, pensando em todo o contexto do nosso público, que é majoritariamente formado por homens, pensamos em fazer essa roda para os homens, para uma conscientização”, explicou.  

Segundo Luana, falar sobre violência é também uma forma de tornar visíveis situações que muitas vezes permanecem silenciosas.  

Processo de mudança 

Além de acompanhar questões relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, a equipe do Caps-AD também pode auxiliar os usuários diante de dificuldades emocionais e comportamentais que interferem em suas relações. A proposta da atividade foi justamente reforçar que buscar ajuda faz parte do processo de mudança.  

Para o coordenador do Caps-AD, João Mário Cataroço, a parceria com a Defensoria Pública amplia as possibilidades de abordagem e orientação dos usuários sobre um tema que precisa ser discutido também no contexto dos serviços de saúde. “Trazer o Nelson para conversar com os homens atendidos pelo Caps-AD é uma oportunidade importante para promover informação e reflexão sobre um tema tão relevante”, afirmou. 

Ao final, os participantes puderam fazer perguntas e esclarecer dúvidas sobre direitos, atendimento da Defensoria Pública e situações envolvendo violência nas relações.