Psicólogo utiliza arte como ferramenta de saúde mental em Araçatuba

arte como ferramenta

Violão, karaokê, dança, composições, brincadeiras e até visitas domiciliares acompanhadas de música. Nos serviços de saúde mental de Araçatuba, a arte também encontra espaço como ferramenta de cuidado, expressão e construção de vínculos.

O trabalho é desenvolvido pelo psicólogo e músico Glauco, conhecido como Caco, que integra as equipes dos Caps (Centros de Atenção Psicossocial) e das Residências Terapêuticas, administrados pela Zatti Saúde em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde.

Não existe uma fórmula única. As atividades são adaptadas às características dos usuários e à proposta terapêutica de cada serviço.

No Caps II, por exemplo, a oficina terapêutica de música tem grande adesão. Rodas de violão, karaokês, dança e atividades de composição são utilizadas para estimular expressão, convivência e liberdade de experimentar sem medo de errar.

Em alguns encontros, papéis e canetas são colocados à disposição para que os participantes transformem sentimentos, experiências, angústias ou momentos felizes em palavras e composições.

O trabalho também ultrapassa os espaços físicos do Caps. Caco participa de visitas domiciliares e do programa Caps Tá na Área, desenvolvido em parceria com unidades da Atenção Primária. Na UBS do Verde Parque, integra grupos terapêuticos ao lado de outra psicóloga, utilizando a música em algumas atividades. Para o músico, “uma visita com violão é melhor do que uma conversa burocrática”, resume.

No Caps AD, voltado ao atendimento de adultos com necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, a proposta busca estimular o protagonismo.

“Eu tento desconstruir a ideia da psicologia tradicional, falando a língua dos atendidos. Faço rodas de violão descontraídas, resgate de memórias que muitas vezes foram perdidas pelo uso da substância, buscando trazer alegria. Incentivo eles a conduzirem a oficina, buscando o resgate do brilho no olhar que a substância muitas vezes apaga”, explica.

Já no Caps III, onde há usuários que apresentam maior dificuldade de interação e expressão, os grupos são menores. A música funciona como uma possibilidade de conexão e comunicação de sentimentos que nem sempre conseguem ser colocados em palavras.

Caco durante atividade em conjunto com educadora física para atendidos do Caps Ad (Foto: arquivo pessoal)

Música e brincadeiras

No Caps Infantil, música e brincadeira caminham juntas. Cantigas de roda, dança das cadeiras e outras atividades lúdicas são utilizadas para trabalhar aspectos como atenção, memória, coordenação, interação e tolerância à frustração.

A “arte” também está presente no trabalho desenvolvido nas Residências Terapêuticas Violetas e Beija-Flor, onde rodas de violão, dança e karaokê integram as atividades, proporcionando momentos de convivência, lazer, autonomia e expressão. “A ideia é levar alegria e dignidade para aqueles que, muitas vezes, nunca souberam o que é isso. Eles ficam livres para serem quem quiserem”.

Além das oficinas, Caco realiza atendimentos individuais em psicologia e atividades compartilhadas com outros integrantes das equipes, somando diferentes conhecimentos e olhares ao acompanhamento dos usuários.

Passeios, piqueniques, festas e atividades de integração também fazem parte dessa proposta. Ao longo do ano, já foram promovidos momentos como baile de Carnaval, feijoada com pagode e atividades em espaços públicos, além de ações de integração com outros serviços de saúde mental.

Para o psicólogo, essas experiências ajudam a mostrar uma realidade dos Caps ainda desconhecida por parte da população.

“É um privilégio poder, diante de situações em que nem sempre temos todas as respostas, oferecer também um abraço e uma música. Isso é Caps, e não o preconceito que a sociedade cria desse serviço”, resume.

Relação com a música

A relação de Caco com a música começou muito antes da atuação profissional. Na adolescência, quando enfrentava dificuldades relacionadas à timidez e à gagueira, encontrou na música e na poesia formas de se expressar e lidar com aquilo que sentia.

Anos depois, essa experiência pessoal se encontrou com a Psicologia. Em 2023, ainda estudante, ele iniciou estágio no Caps II de Araçatuba. Ao término do estágio, permaneceu como voluntário e, junto à equipe, passou a desenvolver uma oficina terapêutica de música.

Formado em Psicologia, em 2025 passou a desenvolver oficinas de música nos Caps e nas duas Residências Terapêuticas. Em 2026, assumiu a função de psicólogo, mantendo a música e outras manifestações artísticas entre os recursos utilizados em sua atuação.

“Minha função principal é agregar à equipe multidisciplinar, oferecendo um caminho além das terapias convencionais. Pela facilidade em trabalhar tanto com a Psicologia quanto com a arte, ofereço essas duas possibilidades aos atendidos, sempre respeitando a singularidade de cada pessoa”, finaliza.